O cantar solitário (ou algo que o valha)

A missão árdua de transferir conhecimento se traduz, hoje, como minha atividade profissional principal. Caminhar ao lado, estender a mão, conduzir, iluminar os recantos obscuros da mente e do pensamento de muita gente com a forte luz do discernimento, do conhecimento e da cultura.

Mais do que obter status (se você está nessa por isto, está com sérios problemas, pois o status é falso e, como tudo o que é sólido, se desmanchará no ar), o que está em jogo é a construção de identidades, a formação de um futuro mais promissor, com gente dotada de senso crítico e focada em fazer o melhor, sempre.

Platéia Vazia

O ofício pode ser solitário, a missão incompreendida. Há, todos sabem, interesses conflitantes, necessidades urgentes e outras nem tão urgentes assim… Porém, assim como o construtor, o engenheiro, o arquiteto – que vê sua obra materializada e se orgulha – no ofício da transmissão de conhecimento, a maior recompensa é ver pessoas bem sucedidas profissionalmente, carregando, para si, uma verdade inquestionável: o que mais vale é o conhecimento. Ponto.

Você é o que sabe. Ponto.

Mas será que todo mundo entende?
Será que muitos não estão, na verdade, perdidos em sua essência, buscando um caminho falso, enxergando uma facilidade que não existe, uma vulgarização do conhecimento?

Será, que na era do ctrl+c, ctrl+v, tudo se resume ao “ouvi dizer”, ao supérfluo? O amor pelo saber é ridicularizado, pessoas estudiosas são esteriotipadas (e, na verdade, riem por dentro, pois sabem que, no fim de tudo, o mundo será delas) e toda uma sociedade e geração correm o sério risco de sucumbir ao efêmero.

E no final das contas, preparando coisas, correndo, desesperadamente indicando caminhos, pensando 2000 vezes antes de falar algo, pois este “algo” pode cair como uma bomba de efeitos imprevisíveis na cabeça de alguém desavisado, me pergunto:

Eu canto pra quem?

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?

Adriana Calcanhoto, Esquadros.

Manda ver!

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